Textos sobre
comunicação e cotidiano

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Trabalho e diversão: inimigos inconciliáveis?

Escrito por Marcelo Herondino
Em 23/09/2019

* Texto escrito originalmente em fevereiro de 2016, publicado aqui por continuar absolutamente atual e relevante.

Há alguns dias, conversei com um amigo sobre as mudanças iminentes na empresa em que trabalhamos, em função da necessidade de produzir mais gastando menos. Reflexos da “crise” que o país atravessa, nada diferente do que terá que fazer qualquer outra empresa, seja ela pública ou privada.

Em dado momento da conversa, me diz esse amigo que “aquela época de ouro, de trabalhar se divertindo, acabou. Agora é só foco no resultado e cobranças“. Ouvir aquilo foi como um soco no estômago, que deixa a pessoa sem reação imediata. Depois de alguns dias, por não ter conseguido digerir essa afirmação, compartilho neste espaço tentando entendê-la com mais profundidade.

Prestes a completar vinte anos de trabalho nessa empresa, posso contar nos dedos de uma mão os dias em que trabalhei me divertindo. Isso, por si só, já me deixou assustado, mas quer dizer que vai ser ainda pior? E não foi essa possibilidade que mais me incomodou, mas sim a necessária correlação entre trabalho e sofrimento – ou, de maneira mais suave, “ausência de diversão”. Então, pelo raciocínio apresentado, diversão é contraproducente?

Lembro bem de cada um desses poucos dias em que me diverti no trabalho. Foram os dias em que mais produzi para essa empresa, a ponto de extrapolar em muito o horário de expediente. Alcancei, nesse período, uma produção muito acima da que era esperada. E não fui motivado por aumento de salário ou alguma gratificação, como podem supor. Fiz por entender que aquele trabalho tinha algum significado e realizá-lo me fazia bem. Só isso.

Fiz de forma diferente do que era normalmente feito e, por estar me divertindo de verdade com aquilo, cheguei a ouvir comentários do tipo “ah, só quer saber de brincadeira, assim é fácil“. Nenhuma das pessoas que criticou se deu ao trabalho de ver que os resultados estavam sendo melhores do que o normal. Que eu e a empresa estávamos ganhando e que isso não era incompatível.

Em que mundo estamos vivendo, no qual o trabalho passa a ser sinônimo de sofrimento, de angústia, de tristeza? E que, por outro lado, a alegria e diversão estão ligadas somente ao ócio, à preguiça, à falta de comprometimento?

Triste constatar que esse pensamento está se tornando lugar-comum, como na fala do meu amigo. Não há que se estranhar, portanto, pessoas insatisfeitas com o que fazem, sonhando com uma aposentadoria ainda distante ou, mais palpável, aquele final de semana salvador ou as consagradoras férias. E irritados com a segunda-feira horrível, que insiste em se repetir semana após semana. São pessoas, como eu, que não conseguem mais achar prazer e diversão no que fazem. Pessoas que vão entristecendo aos poucos, que vão perdendo o tesão pela vida e por tudo que ela tem a oferecer.

Gostaria de ouvir (ler), de meus seletos e eruditos seguidores, o que pensam sobre o assunto. É possível trabalhar e se divertir ao mesmo tempo? Seriam conceitos e comportamentos incompatíveis?

 

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