Textos sobre
comunicação e cotidiano

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Jogador de futebol

Escrito por Marcelo Herondino
Em 24/09/2019

— Jonatas Leonardo.
— Oi?
— Jonatas Leonardo.
— Quem é esse, pai?
— É você. Quer dizer, vai ser você. Quando for jogador de futebol.
— Eu, jogador de futebol? Tirou isso de onde?
— É o teu futuro, menino. Ou pretende ganhar dinheiro como?
— Bom, eu estou em dúvida entre ser engenheiro ou jornalista e…
— Pssssst… não repita isso nem em sonho. Quer passar anos estudando, décadas trabalhando o dia inteiro apenas para sobreviver? E depois ficar mendigando uma aposentadoria, isso se conseguir viver até lá?
— Não tinha pensado nisso, mas… a propósito, meu nome é Gustavo. Da Silva. E todo mundo me chama de Tavinho. De onde veio esse “Jonatas Leonardo”?
— Meu filho, presta atenção: você já viu algum jogador famoso chamado “Tavinho”? Não dá, pra se dar bem tem que ter nome composto. De preferência, dois nomes próprios. Se estivéssemos nos anos 70 ou 80, até poderia ser, mas hoje em dia não rola. Então, tá definido: Jonatas Leonardo.
— Tá bom, pai.
— E te arruma, tá quase na hora de irmos na barber shop
— Ir onde?
— Barber shop. É como chama agora a Barbearia do Joca, ali na esquina.
— Mas eu cortei o cabelo há pouco mais de uma semana… vou fazer o que lá?
— Descolorir. E fazer um outro corte, que chame mais atenção. Já viu jogador famoso sem cabelo chamativo? Pois é…
— Mas pai…
— Não tem nada de “mas”. E te arruma rápido, porque depois vamos num Tattoo Studio…
— Tattoo Studio
?
— Isso. Você vai fazer uma tatuagem tribal no braço, pra passar a imagem de modernidade. E, nas costas, o meu nome e da tua mãe, dentro de um coração. Pra apelar pro lado sentimental das pessoas, em momentos ruins da carreira. Todo jogador famoso tem isso…
— Pai, você tá me zoando, né?
— Antes fosse, filho. Mas estou apenas pensando no teu futuro. Ah, antes que me esqueça: você teve uma infância triste. Sem brinquedos, sem amigos. Sofria bullying na escola por ser gordo e perdeu o avô quando começou a dar os primeiros passos no futebol. Sua carreira é dedicada a ele.
— Pai, eu tive milhares de brinquedos. Nunca fui gordo, tampouco sofri bullying. E o único vô que não tenho é o pai da mamãe. E ele morreu bem antes de eu nascer. Não foi assim?
— Foi, mas deixa isso comigo. Importante é passar a imagem de sofrimento. Já viu jogador famoso sem histórias assim? Parece que já estou vendo o Régis Rosing no Esporte Espetacular, num domingo de manhã… “A infância triste, a perda do avô… como Jonatas Leonardo venceu as dificuldades para se tornar o craque de hoje”.
— É oficial: você não está bem da cabeça, pai…
— Você que pensa. Isso que ainda não falei nas namoradas…
— Namoradas? Só tenho uma, a Jessica…
— Isso hoje. Mas pra sua carreira, é importante ter muitas. De preferência, modelos e atrizes. Mas com uma periguete qualquer entre elas, pra causar polêmica e dar assunto pra imprensa.
— Hahaha… mas você esqueceu de uma coisa fundamental, eu acho…
— O quê, filho?
— Eu não sei jogar futebol. Se me colocar com uma bola a 5 metros de uma trave vazia, eu erro. Como vou me tornar um craque?
— E precisa? Com tudo isso que estou preparando, você acha mesmo que é necessário saber jogar futebol? Acha que todo jogador famoso sabe? Ah, filho, você tem que aprender tanto ainda…

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