Textos sobre
comunicação e cotidiano

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As bailarinas das redes sociais

Escrito por Marcelo Herondino
Em 30/08/2020

Em 2004, a cantora Adriana Calcanhoto (sob o heterônimo “Adriana Partimpim”) lançou um álbum musical destinado ao público infantil. O disco fez bastante sucesso e, dentre as letras lúdicas e melodias agradáveis quero destacar uma, que embora não mencione diretamente, pode nos dizer muito sobre o “mundo mágico” das redes sociais.

Me refiro à “Ciranda da Bailarina”, composta por Chico Buarque e Edu Lobo em 1983 como parte da trilha sonora do balé O Grande Circo Místico . A letra, bonitinha, fala que todas as pessoas têm algum tipo de problema, um medo, um vício etc. Exceto, claro, a bailarina, que é idealizada como a imagem da perfeição. Por isso, a cada problema citado, a música logo trata de lembrar que “só a bailarina que não tem“. Um pequeno trecho para entenderem (se preferir, veja a letra completa):

Procurando bem
Todo mundo tem pereba
Marca de bexiga ou vacina

 

E tem piriri
Tem lombriga, tem ameba
Só a bailarina que não tem

 

E não tem coceira
Verruga nem frieira
Nem falta de maneira ela não tem

 

Futucando bem
Todo mundo tem piolho
Ou tem cheiro de creolina

 

Todo mundo tem
Um irmão meio zarolho
Só a bailarina que não tem

Lembrei dessa música ao passar, distraidamente, pela timeline do Instagram (mas a constatação vale para outras redes sociais, à exceção, talvez, do Twitter).

É impressionante a quantidade de “bailarinas” que povoam essas aplicações. Só existem pessoas perfeitas, sem vícios, sem erros, sem problemas nem preocupações. E tome foto na praia, com uma bebida refrescante nas mãos. Ou na piscina, junto da família. Em viagens pelo mundo. Alguns, praticando esportes mesmo em tempo de pandemia. Pessoas que conheço do “mundo real”, que pegam o carro para ir até a padaria, no maravilhoso mundo das redes sociais são esportistas saudáveis.

É claro que as pessoas não vão postar suas mazelas, o que não quer dizer que elas não existam. É preciso, para quem acessa, usar um filtro de realidade para entender que nem tudo é como mostrado ali. Sem esse filtro, há um risco imenso de frustração e até, me atrevo a dizer, de problemas mentais. Ora, se todo mundo tem uma vida de sonhos, por que só a minha não é assim?

As redes sociais, em tese criadas para aproximar pessoas, se transformaram em um centro para exibição pública de egos. Via de regra, não são usadas para encontrar amigos que a vida separou ou manter contato com familiares distantes. Servem, mais das vezes, para esfregar a vida maravilhosa e perfeita na cara dos pobres humanos comuns.

Culpa das redes? Não. Elas são apenas instrumentos que refletem o que as pessoas têm para dar. Culpa das próprias pessoas, que são cada vez mais fúteis e movidas pelo exibicionismo. Valores como empatia, solidariedade e caridade são cada vez mais raros. A não ser, claro, que se possa fazer uma selfie e mostrar no Instagram.

“As pessoas sairão melhores dessa pandemia”, eles disseram. Isso pode ser verdade para alguns, mas não é o que eu constato empiricamente nas redes sociais e no noticiário cotidiano. Cada vez mais, vejo egoísmo, inveja e a necessidade de afirmação pessoal, não importa que isso machuque ou afete terceiros.

E alguém sempre pode dar o sábio conselho: “ora, é só sair das redes sociais”. Sim, esse ato é simples, mas não resolve o problema. É como deixar de assistir TV para não ser informado das mortes por doenças, acidentes ou crimes. Isso não faz com que eles deixem de existir.

De minha parte, eu tento ver as pessoas nas redes sociais como elas realmente são. E sugiro que você faça o mesmo, pois procurando bem todo mundo tem defeitos, só a bailarina que não tem.

 

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