Textos sobre
comunicação e cotidiano

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Alumbramento

Escrito por Marcelo Herondino
Em 25/09/2019

Celina sempre foi de poucas amizades. Desde pequena, ainda nos banco escolares, desprezava solenemente qualquer tentativa de aproximação por parte de algum coleguinha. Amigos não os teve, nem depois de adulta, pois achava perda de tempo investir em qualquer tipo de relação mais próxima com quem quer que fosse.

De mais a mais, não podia confiar nas pessoas, disso ela sabia bem. Especialmente depois da morte de sua mãe, a única pessoa em quem confiara de verdade. Lembrava como se fosse hoje, D. Inácia agonizando, o ar lhe faltando… só conseguiu implorar, por gestos, para que buscasse ajuda.

Celina saiu correndo, desorientada, atrás de quem pudesse socorrer a pobre mãe. Era tarde da noite e os poucos vizinhos já dormiam. Viu uma luz se acender na casa de “seo” Ernesto, amigo de longa data da família. Esperançosa, já que “seo” Ernesto era um dos poucos moradores da vila que possuía automóvel e poderia levar a mãe ao hospital da cidade, bateu à janela com força, sem obter resposta.

Insistiu, mas apenas o vento noturno se fazia ouvir. Pela veneziana entreaberta, percebeu um vulto se agachando, quase se escondendo dentro de casa. Teve certeza que era Miguel, o filho mais novo de “seo” Ernesto, que ouvia seu chamado mas se negava a atendê-la. Sem entender o motivo e desesperada, saiu dali em busca de outra alma que pudesse ajudá-la. Só uma hora mais tarde conseguiu que um morador mais distante a atendesse, mas sequer chegou em casa a tempo de se despedir da velha mãe: ela já tinha ido, vítima de um ataque cardíaco.

A dor de Celina foi ainda maior quando o médico, analisando o corpo, lhe disse displicentemente que “se fosse socorrida mais cedo, as chances de sobreviver seriam grandes”. Miguel tinha culpa pela morte de D. Inácia, ela sabia disso. E nunca o perdoaria. Mais que isso, nunca perdoaria as pessoas em geral, não teria amigos, viveria apenas para honrar o nome da mãe que lhe ensinara a manter o caráter e a dignidade, custasse o que custasse.

[…]

Muito tempo já tinha transcorrido desde o passamento de D. Inácia. Celina era uma mulher bem sucedida profissionalmente, mas ainda avessa às amizades e de comportamento reservado. Lembrava-se constantemente da mãe, mas naquela manhã em especial sua presença parecia ainda mais marcante.

Naquele dia, estranhamente e sem mesmo pensar a respeito, comprou um chaveiro de um pobre velhinho que vendia bugigangas na porta da empresa. Logo ela, que nunca dava sequer atenção para esse tipo de gente, naquele dia parou para ouvir os reclames do homem. Quando se deu conta, já tinha comprado e nem sabia o que fazer com a peça. “Mas que tolice”, pensou despreocupadamente jogando o chaveiro no bolso do casaco e seguindo seu caminho.

Mais adiante, outra fuga da rotina: parou seu carro próximo ao mercadinho central, sem nem saber ao certo o que iria comprar. Com a dificuldade de achar uma vaga, estacionou de qualquer jeito, já que não demoraria. Deixou o carro meio “de lado” mesmo, correndo para chegar ao mercado. Algo a movia para aquele lugar sem que Celina sequer notasse isso, com a imagem da mãe cada vez mais forte na sua mente. “Vou fazer uma oração por ela quando chegar em casa”, pensou.

Estava na fila do caixa, quando um barulho alto e a movimentação da rua a fizeram sair da loja. O que viu a deixou assustadíssima: um caminhão desgovernado havia destruído seu carro e o que se via era um monte de ferragens e muita gente gritando. Na calçada, uma aglomeração chamou sua atenção mais do que aquela montanha de ferro retorcido. Um homem chorava, apavorado, repetindo sem parar que aquele carro tinha salvado sua vida. Que se não estivesse ali, o caminhão o teria matado, sem dúvidas.

Olhando por entre a multidão, Celina reconheceu aquele homem, mesmo muito tempo depois: era Miguel, o filho mais novo do “seo” Ernesto. Ela não teve forças sequer para esboçar qualquer reação. Por ironia do destino, mesmo sem querer, salvara a vida daquele que, para ela, tinha sido responsável pela morte de sua mãe.

Saiu dali em prantos, com a imagem da velha mãe cada vez mais impregnada em seu pensamento. Depois, com calma, resolveria a questão do carro… por ora, não sabia sequer em que pensar.

Instintivamente, passou a mão no bolso do casaco e sentiu a presença do chaveiro que havia comprado de manhã. Retirou-o e olhou fixamente a peça: de um lado, a figura de um Cristo crucificado não o fazia mais especial do que qualquer um desses chaveiros que são vendidos na rua. Atrás, uma única palavra, que naquele momento significava para Celina o que havia de mais importante no mundo. Em letras de fôrma, a palavra “PERDOA” tocou fundo em seu duro coração.

Imediatamente, entendeu o motivo de ter mudado sua rotina e de ter lembrado tanto de sua mãe naquele dia: ela precisava passar por aquilo, precisava perdoar, precisava abrir seu coração…

Naquele mesmo instante, em algum lugar em uma outra dimensão, D. Inácia e “seo” Ernesto se abraçavam afetuosamente, certos de ter cumprido sua missão.

 

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